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Ex-Votos, Ensalmos e Benzeduras

Ex-voto é a simplificação de uma expressão latina que significa: dado ou oferecido por promessa feita. Desde tempos muito antigos que os povos oferecem aos deuses e aos santos pequenos objetos como reconhecimento por alguma benessa concedida. É uma tradição muito enraizada no culto religioso, hoje com expressão significativa nos diversos objetos de cera que podemos ver junto dos altares ou templos.

Exemplo interessante destas práticas são as pequenas placas de madeira pintadas que eram penduradas nas paredes dos templos. Este recurso assumiu especial importância sobretudo entre o século XVII e finais do Século XIX. As placas votivas constituem, pelo seu conteúdo, documento interessante para análise de diversos aspetos da vida desse tempo. Podem encontrar-se em algumas ermidas e capelas do Município: capela de Santa Ana no Vacalar; ermida da Sra. da Graça em Cimbres; capela de S. Gregório em Santa Cruz, entre outras.

Uma parte bastante curiosa da etnografia em Armamar, e que de resto se estende por todo o país, era a da cura dos males pela via de práticas esotéricas, com a crença popular e a fé a misturar-se com alguns fundamentos da medicina, então arcaica e sem capacidade para grandes respostas.

Antigamente os povos estavam sujeitos a uma série de perigos e fatores de risco que lhes debilitava as defesas, dando origem a doenças que, não raras vezes, resultavam na morte de quem delas padecia. Muitas vezes a causa das doenças era atribuída a espíritos e aos próprios deuses que assim se manifestavam castigando quem merecesse o castigo. A medicina preventiva não existia, vacinas ninguém sabia o que semelhante “coisa” era.

Em suma, as condições de vida em que as pessoas viviam, com graves deficiências ao nível da higiene, das condições de habitabilidade das casas (muitas vezes com animais e pessoas a partilhar o mesmo teto), ignorância e falta de formação, entre muitos outros fatores, resultavam num cenário dramático do ponto de vista da saúde pública.

A par deste contexto a medicina era uma ciência pouco desenvolvida e o seu campo de ação dificilmente contemplava as terras isoladas do interior do país. Foi assim que ao longo de gerações se foram desenvolvendo as tais práticas de curandice, influenciadas por uma mistura de crenças religiosas, superstições ou bruxarias.

As pessoas que ajudavam os outros na cura dos males eram, na maior parte das vezes, respeitáveis membros das sociedades em que viviam, mais que não fosse porque em caso de aflição eles saberiam como salvar aquela vida curando a maleita. Na sua maioria eram mulheres, mulheres de virtude (assim lhes chamavam) que usavam determinadas plantas e ervas para fazer mezinhas com que procuravam minorar o sofrimento das pessoas... sempre com a ajuda da divina providência. Havia remédio para tudo!

Armamar e as suas gentes, geração após geração, não fizeram diferente. As doenças propagavam-se muito facilmente, a medicina quase não existia, e os médicos eram mesmo estas mulheres e homens que, fruto de um saber maior, tinham a seu cargo a missão de curar os males e salvar vidas.

Talhar a “Trícia”

Meia canada de vinho branco, açúcar mascavado e erva da rela. Mistura-se tudo numa garrafa e põe-se a “serenar” (ao orvalho) durante uma noite. O doente deve beber o líquido aos quarteirões, recomendando-se a seguinte dieta: só deve comer caldos brancos, nenhumas verduras, nem pão de milho, nem beber vinho simples.

Talhar o “Bicho”

Bicho, bichão
Sapo, sapão
Aranha ou aranhão
Pelo apóstolo milagroso
S. Pedro, S. Paulo e S. Bento,
Eu talho este bicho peçonhento,
Seco sejas como este carvão.

(Talha-se com um tição em brasa, uma faca ou navalha, encostando a lâmina à pele afetada)

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